segunda-feira, outubro 31, 2005

A intermitente história do público alvo

Era uma mulher. Da cabeça aos pés uma mulher. Lia uma revista. Não! Um livro...um livro de padrões grandes. Era difícil ver o título, mas tinha belas ilustrações. Parecia concentrada e mantinha as mãos debaixo do volume, enquanto isso, o metrô chacoalhava. Entrava gente, saía gente. Milhares de pernas se entrelaçavam, se pisavam. As conversas eram múltiplas produziam ondas sonoras que se chocavam, deixando um burburinho, como um rádio mal sintonizado. A minha mulher estava lá ainda e eu não tirava os olhos. Tal concentração induzia uma obra de grande preciosidade. Ou talvez algo meramente fútil. Poderia ser ela tão sem graça quanto aquele volume; mas neste instante, a personagem ainda era minha e eu poderia fazer com ela o que quisesse. Se fosse rainha, poderia transformá-la em uma plebéia. Se fosse atriz, numa espectadora; ou então seria apenas uma leiga viajante de um mundo literato não muito diverso. Mas vamos voltar ao ponto onde estava eu, a personagem e um amontoado de gente no vagão do metrô. O celular dela tocou; uma musiquinha clássica dessas que não consegui identificar. O toque era crescente. Daí ela fechou o livro e pôs um dedo pra marcar a página. Era um tomo desses de psicanálise bem antigos. Minha personagem era assim: gostava de psicologia. Ou talvez fosse uma mera curiosa; o que mesmo assim não deixava de me interessar sumamente.
- Alô...sim...é possível que eu chegue lá pelas - olhou o relógio - cinco e meia. Talvez me atrase...não, uma só não basta...isso...chego em breve...tchau. - atrapalhou-se com a bolsa e deixou o livro cair.
Deixo com o leitor a continuação, ainda dou opção, pra você ver como sou bonzinho:
1 - Ajudo-a com o livro.
2 - Deixo que ela, só, consiga se desatrapalhar.
Vamos ver até onde vocês conseguem chegar =]

sábado, outubro 29, 2005

Minas - Parte II e ainda intermitente

Fiz um amigo por aqui. O Dudu [note-se a intimidade rs]. Procurando alguma coisa pra fazer nesta cidadezinha, Poços de Caldas, achei uma lan house e descobri uma festa rave e, consequentemente, conheci alguém que fosse de ônibus comigo [que o dinheiro é escasso], o tal mencionado lá no começo do post. Que moleque bacana, nem me conhecia direito e ainda se ofereceu de me dar carona até a rave [o pai dele se dispôs a carregar]. Peguei até msn. Carinha simpático, conhece meia cidade. Onde passa dá aceno, levanta o braço e cumprimenta. Acabou que não deu pra ir; grana pouca, sem aviso prévio no hotel. Viajar com mãe é chato por isso. Por minha conta já estava lá. Uma pena. Mas eu volto. Até o Rio de Janeiro, agora.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Minas e [su]a beleza

Minas é bom no seguinte aspecto: aqui todo mundo é bem bonito.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Odeon e Cachaça

No cinema. Cine-cachaça. Três filmes e quase nenhum lugar. Aí eu vou e sento lá atrás, num dos poucos remanescentes. Discussões em casa, no carro. Era minha fuga. Ali quieto, sentado, sozinho, na escuridão dos curta-metragens. Afinal, eu merecia. Tinha chorado o dia inteiro e escrito algumas poesias. Claro, pensava em ter alguém ao lado, não porque realmente quisesse, mas porque todos tinham. Alguém que mesmo no silêncio me dissesse algo. Neste instante, um cara atrás de mim acende um baseado e começa a fumar. De repente um cheiro forte e mais nenhum lugar. Eu virei:

- Amigo, nada contra, mas você poderia apagar o seu fumo?
- Pô, coé mermão! Tô aqui fumando meu baseado em paz, sem incomodar ninguém.
- Mas tá me incomodando. Eu não fumo maconha e tenho que ficar sentindo o cheiro. E você não é aspirador de pó pra eliminar a fumaça.

Aí o cara levantou o tom

- Pô, ó o cara aqui se ligando no meu bagulho.

O pior de tudo é que no filme tinha uma mulher que fumava maconha e cuspia a fumaça no aspirador de pó. Nessa hora ele disse:

- Tu bem que sabe das coisas hein, mermão!!

Vê se pode!

terça-feira, outubro 25, 2005

Sobre a Enxurrada que arrastou o Rio [ou Dos Políticos e suas Conversas]

Pior do que ver o Rio ser trucidado por uma enxurrada é ler o depoimento do César Maia a respeito do caso, dizendo que o estado suportou bem o temporal; e, pior ainda, comparando com o resto do Brasil. Podemos comparar os estragos aos do Tsunami ou então, aos do furacão Wilma; não preciso nem de estimativa pra acertar.

Dizer-se contra à remoção de favelas é um descaso com o Rio de Janeiro. Eu aceito até que se diga: "prefiro gastar dinheiro no pan", pelo menos é mais sincero.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Eu, assim como você



Eu; vinte e um anos,

homem direito,

não formado,

sem dinheiro,

mas de boa família,

venho estufar o peito

e bater com força nos pulmões

a mão em concha

pra vos dizer que tenho medo.

E se o passo acelero,

procurando atravessar

os quilômetros que me separam

do futuro,

é porque busco

a esperança que não encontro

hoje;

eu, cidadão brasileiro,

desarmado, descrente, desesperançoso,

e tantos outros "des",

assim como tu,

luto pela paz e igualdade,

movido unicamente por um coração

e uma alma,

que há de se questionar se existe,

munida de coragem e energia

que me sobrou da última refeição;

eu, assim como tu,

ando estressado, cheio de contas pra pagar,

com um terno escuro

num calor intenso de quarenta graus,

porque sou homem sério

e sei que a impressão primeira

é a que fica, e como vós,

preciso me curvar ao poderio

americano,

mesmo no verão,

mesmo encharcando o terno

com gotas de suor e sacrifício,

porque meu filho,

assim como os vossos,

não se contenta com uma pipa,

ou um carrinho ou um pião,

e minha casa precisa de móveis,

luz e pão;

eu, universitário,

pacífico, morador da Zona Norte,

assim como vós,

não entendo a vida,

mas sigo por instinto

a pressão de ser alguém,

seja qual for o sentido;

porque eu,

homem de vinte e um anos

e um sonho de justiça,

estou aqui, como vós,

por um mero acaso

e agradeço pela chance

de estar vivo.

sábado, outubro 22, 2005

Homem Comum [Ferreira Gullar]


Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar

Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.
Que o tempo é pouco e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share, a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros braços do polvo a nos sugar a vida e a bolsa

Homem comum, igual
a você, cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.
Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.

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Porque este poema é maravilhoso e gostaria muito de que ele fizesse parte do meu blog, mesmo não sendo meu. Este sim me comoveu muito no dia em que o Gullar esteve na UFRJ.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Tartarugas Podem Voar


Sou iraqueamericano:
filho da guerra e do petróleo.
Fruto do ventre insano
da união do amoródio.

Sou pazarmada
munida de fogo e pedra
sou poesia incompleta
de um artista de meio berço.

Sou de diretaesquerda;
meus olhos estrábicos
não conhecem a diferença.

Sou ocidenteorietal:
Fruto do ventre insano
da união do bem e do mal.

terça-feira, outubro 18, 2005

O preço da liberdade ou As duas metades do equilíbrio

Eu sei que não é fácil. Nós todos sabemos que não é. Custa alguma coisa essa tua liberdade, da qual tanto você se orgulha. A minha também não é barata, estou vendendo em Euros, inclusive; moeda cara. O preço não é pra qualquer freguês, só pros abusados, ousados. A vida não me mete tanto medo porque não pretendo subir tão alto; altura demais me assusta. Por isso, aceito. Naquele momento você riu de mim e eu de você, ambos por motivos diferentes...ambos nos entrejulgamos certos. Mas estávamos errados. Eu nunca havia te abraçado até então, porque nunca sentira a necessidade de pedir desculpas. Porque só pede desculpas quem erra, e eu achava que nunca havia errado. Eu falava pra você trocar suas chinelas por um par de sapatos, enquanto você implorava pra que eu me livrasse do incômodo dos paletós; eu lhe dizia pra não ficar o dia inteiro na praia e que arrumasse um bom emprego, enquanto você tentava me subtrair as horas de desassossego que me causavam o excesso de trabalho; eu falava sobre capitalismo e você sobre igualdades; você falava de prazer e eu, de responsabilidades. Mas eu não te ouvi. Você também não me ouviu. Os anos passaram e juntos convivemos brigados. Sem se falar por muito tempo; eu sempre passava correndo, enquanto você assobiava tranqüilo o Bolero de Ravel. E vivíamos eu lamentando por ti e tu, por mim. Até que um dia eu, tão sufocado de afazeres, decidi parar pro único abraço que lhe daria dentro de muitos anos. Foi então que você me compreendeu e eu finalmente, te compreendi.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Que me dê a devida vontade de voar


...e por ser feito de pequenos grãos o infinito se desfez contra o vento.

quinta-feira, outubro 13, 2005

A Revolta da Natureza

Contra os homens, que se poderiam dizer intermitentes, não basta. Enquanto criamos aparatos tecnológicos e enquanto vejo os pais "modernos", que lotam as lojas pra comprar [seja o que for pra sei lá quem] eu leio numa capa de revista que a natureza se revolta contra os homens. Acho o título poético, profético. A natureza tem o seu direito de se defender contra o seu maior predador. Leio um pouco mais: prazo de cinqüenta anos para consertar os danos que fizemos ao planeta. OK! Eu tive essa conversinha com os meninos aqui da rua, mas todos se mostraram bastante esperançosos com relação a uma vida longa à humanidade. Já eu tentei mostrar que não. Sou pessimista, creio. E discorri [tentei, pelo menos] sobre como o ser humano destrói as coisas. Falamos sobre grana, petróleo, não sei se convenci; todos eles são muito vidrados naquele pensamento de que "nós evoluímos bastante e podemos criar uma solução". Acontece que pra tudo há uma solução utópica. Mas nem sempre uma verídica. Não sou estúpido o suficiente pra achar que já não inventaram a solução pra fome! Ou então pra poluição dos rios e da atmosfera! Mas acabar com a fome é um problema sério pra quem vive de vender alimentos. Acabar com a poluição é problema sério pra quem vive dela. Duvido que não tenham inventado carros que não poluam o ar, mas isto implicaria intrinsecamente na não utilização do petróleo. Isso levaria à falência algumas empresas. Assim como distribuir e alimentar o povo africano levaria à falência qualquer distribuidora e produtora de alimentícios. Entro na loja da nike: o ar-condicinado é mais eficiente. Uma camisa: R$84,90. É bonita. Olho pra minha: R$12,00. É confortável. Basta. São tão caras porque alguém se dispõe a pagar. Não muito convincente minha explicação, mas é uma. Afinal, estou um pouco demodé com a minha breguice. E vejo inúmeras opções: pagar em não-sei-quantas-vezes no cartão. Faça "já hoje mesmo" o seu cartão C&A. Penso na lógica que existe nisso tudo. Vejo a mulher jogar o papel no chão, os rios poluídos, cheios de detritos. Se dragarem, o povo vem e "esmerdalha" tudo de novo. Educação ninguém dá. Custa caro, pro governo e pro povo. Imediatismo a gente sabe de cor: a situação ficou preta, vem o cientista e faz o trabalhinho dele pra salvar a população de imbecis que vai destruir tudo de novo. Sendo eu cientista me recusaria a ajudar; como diria a boa linguagem chula: "jogaria merda no ventilador". Afinal, todos vamos morrer. E achamos que o essencial é comprar. Até que no fim, compramos tudo, exceto uma coisa: a vida de verdade.

domingo, outubro 09, 2005

Pra Juliana dançar

Ela tem sentido. E perdoe-me se for pessoal demais o que escrevo, mas sinto: com ela e como ela. Ela fala a língua das borboletas, onde o silêncio de Deus escondeu-se por detrás de um casulo. E na perfeição, ela dorme. E repito o pronome: ela. Por si só, basta. Diz-se muito com uma única palavra, mais ainda com o silêncio. E ela dança, gesticula sua própria essência num balé bonito, esperando esbarrar um dia no infinito. Ela cai e se põe de pé, porque o show continua e sem ela não há dança, sem ela a platéia levanta e pede o dinheiro de volta, mas ela nem percebe que é o centro das atenções. Até que um dia a música vai sair do tom, o poeta vai errar o verso, e virão vaias da multidão. E eu farei música, farei verso, farei palmas...pra Juliana dançar.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Na hora H

Tá, não estou bem, de novo! Lembra até a música dos hermanos: "deixa assim como está, sereno". Não estou conseguindo me concentrar, estou com depressão novamente e, quando parecia que minha vida finalmente se acertaria e que eu estava forte, eu caí. Esse blog completou um ano e fechou um ciclo começando outro, nos mesmos dizeres. Se alguém for observar os posts iniciais de 2004 vai perceber que eu estava exatamente como descrevo agora. Pior que se sentir desanimado é sentir-se impotente ou até mesmo incapaz. E é como se todo dia eu acordasse com uma vozinha que me dissesse ao fundo: "vai Marcelo, ser gauche na vida!". Tá bom! Essa não é minha! É do Drummond, mas é assim que me sinto. Da mesma maneira, parece que divididos aos pés dos meus ouvidos, existem dois minúsculos seres: um diabinho e um anjinho. Enquanto um diz "vai" o outro diz "fica". Mas quem afinal é o anjo ou quem é o demônio na história não se sabe. Eu nasci pra toda essa dúvida mesmo. Pra ter medo de mim e de onde eu quero chegar. Pra ter medo do que me dá prazer porque "O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja". Então, na hora H, é mais fácil correr do que se entregar...

terça-feira, outubro 04, 2005

Sobre o Referendo e os Artistas da Globo

Eu abro um espaço aqui no Intermitentes pra falar sobre o tão estúpido referendo sobre a proibição da comercialização de armas de fogo [ufa!]. Meu amigo Henrique, do memórias de mais um na multidão (vide Recomendo), já havia comentado sobre ele em um de seus posts antigos. Acontece que eu acho que o povo brasileiro é muito iludido em termos de esperança. E se agarram a ela sem nunca terem pensado o que de fato significaria tudo isso. Não importa! Pensa-se (ou melhor, se auto-engana) que ser contra a proibição é ser a favor da criminalização; na realidade não sei se esta idéia é algo já veiculado pela mídia ou se faz parte de mais-uma-daquelas-moralizações-sociais que tenta vender o slogan: eu sou bonzinho, por isso digo sim!

Acontece que é de esperar que as estatísticas apontem que os crimes acidentais são bem menores que os crimes, assim por dizer, cometidos propositalmente; a não ser que algum Garotinho da vida modifique as palavras [porque estatística é tão precisa que não depende apenas das contas, mas também de um bom vocabulário] e diga que uma "rixa entre vizinhos" é o mesmo que "confronto entre traficantes de favelas vizinhas". Porque é possível transformar o Brasil num país perfeito usando apenas a estatística e o Português. É como se fosse comum ao cidadão que tivesse uma arma legalizada em sua casa, de relações estremecidas com sua vizinha Ana, do quatrocentos e um, "estourar os miolos da filha da puta" porque ela botou o som alto no
pagodão que ele odeia. Provavelmente o cara vai usar sua arminha legalizada, registrada em seu nome, para cometer o crime, não é?
Eu tenho medo da minha leve suspeita estar correta: a de que o povão vai votar sim! Porque, afinal de contas, todo mundo está muito preocupado com os crimes acidentais e ninguém quer se passar por "mau" e ser a favor da legalização de uma coisa que mata. O bandido vai continuar armado, contrabandeando armas ilegalmente [bandido não tem e nunca teve arma legal], é estúpido registrar uma arma com a finalidade de cometer um crime. Conversei com um amigo que vai votar sim e me espantei como que ele, tão inteligente, poderia ser capaz de acreditar que esse estatuto seja uma coisa plausível e de suma importância. Diz ele que as armas legalizadas são em maior número no país, estatisticamente. Vou deixar você, leitor, raciocinar porque isso é verdade (e ao mesmo tempo, uma grande mentira).

Já viram as vinhetas das duas frontes? Perceberam que o fundo de tela posto pelo SIM é branco? Há uma referência implícita à paz nisso tudo. Como se a paz residisse aí, em ser impensante, em agir a favor do amor! É, até o amor já entrou na história, pra ser confundido. Mas eu, que sou contra [inclusive ao referendo, grana pública deveria ser utilizada em prol da educação, mas isso não convém, país de gente pensante é uma ameaça muito maior do que armas de fogo], sei que este referendo vai dar sim e torço por estar errado, mas quem sou eu pra disputar com o Lázaro Ramos e os artistas da Globo?